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Júnior no Porto. Docas em Quarteira. Lani em Viana do Castelo. Goofy em Coimbra. Danlas em Castelo Branco. São negros ou beijes, da raça Retriever Labrador. De Norte a Sul, muitos já os terão visto em trabalho, guiando com confiança o seu dono em ruas movimentadas, escadas rolantes ou no comboio. São cães-guia para cegos entregues pela Escola de Mortágua (Viseu), única no país. Camila foi a primeira, em 1999. Marx é o 50.º. Duas dezenas de utilizadores estão, este fim-de-semana, reunidos na Figueira na Foz, para debater problemas, trocar experiências e apresentar dados sobre o site do Clube Português de Utilizadores de Cão-guia (www.cpuc.org.pt).

"Verificamos que o cão permitiu, não só muito maior autonomia física, mas também uma integração social extraordinariamente maior", salienta João Fonseca, presidente da Associação Beira Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV), que gere a Escola de Mortágua. "O cego passou a ser alvo das atenções dos que o rodeiam. Daí a importância da escolha da raça Labrador, que permite a aproximação das pessoas", acrescenta.

Para assinalar a entrega do 50.º cão-guia está a ser preparada uma revista com as histórias de cada dupla. "É um marco, mas é mais simbólico, porque o 50.º é tão importante como o 49.º e como será o 72.º", refere o dirigente da ABAADV. "Significa que temos um passado que nos ajudará a ser melhores no futuro".

Família escolhe nome

E o futuro passa pelos nove cachorros da Kuska, que nos recebe cheia de energia quando entrámos na "maternidade". Seis pretos e três beijes em cima de um cobertor, no chão da sala, subdividido em três para que a mãe tenha espaço para descansar e comer. Ouvem-se os latidos dos pequenos e o som de um rádio a tocar. "É para se habituarem aos ruídos. Devem receber o máximo de estímulos possível", explica Ana Filipa, directora técnica. "Eles não estão mais de uma hora sem serem mexidos para se habituarem ao contacto humano".

Os filhotes da Kuska nasceram há cinco semanas, mas ainda não têm nome. A escolha será feita pela família que os acolher a partir dos dois meses. Certo é que irá começar pela letra O. "Cada letra corresponde a um ano de nascimento", conta João Fonseca, veterinário de profissão.

"O cão é que decide"

Aos 12 meses o cão "regressa" à escola para iniciar o treino técnico. Os dias de semana são passados nas ruas de Coimbra e Viseu a aprender a identificar uma caixa multibanco ou contornar obstáculos inesperados, como carros estacionados nos passeios. "O cão-guia é diariamente sujeito a processos de decisão e ele tem que decidir, porque está a trabalhar com uma pessoa, deficiente, que não tem a capacidade de antecipação, de verificação, de equilíbrio perante um factor novo", afirma Vítor, um dos educadores. "É o cão que decide e a pessoa confia nele".

Perante as características do cão-guia, a escola selecciona o seu utilizador. "Um cão macho, com um determinado tipo de andamento e 65 centímetros de altura, não vamos entregá-lo a uma senhora de 60 anos que caminha devagar", exemplifica o presidente da ABAADV.

Os cães-guia são entregues gratuitamente, "o cego só paga as duas semanas de formação num regime de proporcionalidade do rendimento do agregado familiar, numa base estimada em 500 euros", explicou o presidente da ABAADV. Mas os custos inerentes a cada cão rondam os 15 mil euros. A Segurança Social cobre "60 a 65% do nosso orçamento, que ronda os 200 mil euros anuais", o resto provém "dos sócios, de donativos e da venda de merchandising".

Nova legislação prevê coimas para quem barrar a dupla

O "direito de acessibilidade dos deficientes visuais acompanhados de cães-guias a locais, transportes e estabelecimentos de acesso público" está definido no decreto-lei 118/99, sendo que o texto também prevê a fase de treino dos cães-guias quando acompanhados do respectivo educador ou família de acolhimento. Mas, na prática, a lei nem sempre vinga e os utilizadores de cães-guia são barrados à entrada de restaurantes, supermercados e salas de espectáculos.

O Clube Português de Utilizadores de Cão-guia (CPUC) e a Associação Beira-Aguieira de Apoio ao Deficiente Visual (ABAADV) fizeram algumas propostas de alteração ao regime jurídico actual. "As negociações estão na recta final", revelou João Fonseca, presidente da ABAADV. "A promessa da Secretaria de Estado é que será para entrar em vigor no primeiro trimestre de 2007, pelo que presumo que, até ao fim do ano, a nova legislação seja aprovada", acrescentou ao JN.

Uma das alterações é a introdução de coimas para os incumpridores. Os utilizadores de cão-guia propõem uma coima "graduada entre uma a cinco vezes o valor mais elevado do salário mínimo nacional" - ou seja, entre 385,90 euros e 1929,50 euros em valores de 2006. "A legislação vai incidir sobre os cães-guia para cegos e cães que auxiliam deficientes motores e surdos, definindo ainda quem poderá produzir estes cães de assistência", revelou o dirigente.

Jornalista: Sandra Alves
Fonte: JN
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