26
Jan

A história que ora vou contar é mais uma história de uma pessoa vulgar que, por circunstâncias da vida que desconheço, um dia veio a tornar-se diferente, por ter deixado de ouvir da mesma forma do que as restantes pessoas vulgares que constituem a mole humana do mundo em que todos nós vivemos.
Como já disse atrás, por circunstancias que desconheço e nem sequer me ocupam o pensamento, tornei-me deficiente auditivo; pois que tendo a minha família notado que eu estava a pedir para repetir tudo, com o meu infantil “hã…?” iniciou-se uma busca constante de encontrar uma solução para minorar esta minha dificuldade, de modo a que não viesse a perder a linguagem até então adquirida.

Tinha eu os meus 3,5 anos de idade quando pela primeira vez me foi colocada uma prótese auditiva, a qual usei no ouvido esquerdo, até aos meus 37 anos de idade; pois que havia-me sido diagnosticada uma surdez neurosensorial severa profunda.

Mais tarde, frequentava eu a 3ª classe, os meus professores começaram a notar que eu estava a começar a enfrentar dificuldades em ver o que eles escreviam no quadro negro de lousa que diante das nossas carteiras se encontrava e onde eles iam escrevinhando as matérias que íamos aprendendo ao longo do ano escolar.
Mais uma vez os meus familiares não se quedaram diante do avizinhar de mais um problema que, a não ser tido precocemente em conta, poderia vir a criar-me dificuldades; tendo assim iniciado uma outra busca de soluções, quer médicas como ortópticas.
O diagnóstico nesta área é ainda incerto, não só porque eu ainda não fui submetido a testes de genética, mas, também, porque os clínicos em Portugal ainda não se debruçam a sério sobre as questões de falta de visão por questões genéticas; limitando-se ao tradicional método de verificação da real falta de visão através de meios físicos e pouco mais.

A verdade é que depois dos 30 anos a visão tornou-se problemática, sobretudo à noite, em locais pouco iluminados, a falta de contrastes, de profundidade de campo e o campo visual foram-se perdendo aos poucos.
Aos 37 anos de idade, a audição que desde os 3,5 anos de idade se vinha apoiando numa simples prótese retroauricular convencional extinguiu-se, pensando eu até que teria sido uma vulgar avaria da prótese auditiva, mas assim não foi.

As causas, mais uma vez, são, para mim, desconhecidas; mas o que importa é que ainda estou vivo!
E se vivo estava, vivo continuei; mais uma vez parti para a busca de soluções que me permitissem continuar a ser a pessoa vulgar que sempre fui, muito embora agora estando em outras circunstâncias: pois havia-me tornado um surdocego.

Parti então em busca de novas soluções, para que me pudesse, dentro das novas circunstancias, ainda, continuar a sentir vivo; e já que não me era dada a capacidade de ouvir com os naturais ouvidos do corpo tive que, usando o meu próprio corpo e toda uma aprendizagem e conhecimento dos 37 anos que já tinha, descobrir novas formas de receber comunicação e de poder ter acesso ao mundo que me rodeava e onde nunca deixei de estar inserido.
A escrita dos caracteres alfabéticos, formando palavras e contextualizando situações, na palma das minhas mãos, o ouvir música – coisa que sempre adorei e que sempre foi o motor do meu estado de consciência – através da vibração de umas simples colunas de som de um computador, situação que me foi sendo possível com músicas e obras da música clássica cujas sensações já faziam parte da minha memória auditiva, assistir a alguns concertos munido de duas garrafitas de plástico com um pouco de água no fundo – para cortar os excessos das vibrações – nas mãos, sentir o funcionamento de diversos equipamentos que necessitava de usar no meu dia a dia, - como as fotocopiadoras, máquinas de café expresso, o motor dos carros onde era transportado, dos autocarros, eléctricos e do próprio metropolitano - sentir as emoções e sensações de todos aqueles que comigo se comunicavam através da escrita na palma das minhas mãos, os seus estados emocionais e, até!, de espírito; já que através do contacto físico, não estando eu distraído com o ruído que me envolvia, pois que não tinha acesso a ele, fui adquirindo a capacidade, que desenvolvi ao máximo!, de poder sentir, ouvir e ver coisas que de outro modo seguramente não teria sido possível: enfim…uma experiencia inolvidável!

E assim foi durante 11 anos, talvez o tempo necessário à gestação de uma ideia nova, a de poder vir a ser submetido a uma cirurgia de implante-coclear, que a ser bem sucedida me reabriria as portas do mundo sonoro que. Ainda que incompleto, se havia desmoronado anos antes.
Este processo de consciencialização também não foi fácil, mas, mais uma vez, a ajuda de todos aqueles que me rodeiam, incluindo os próprios clínicos, foi fulcral para que eu não viesse a criar falsas expectativas e viesse a abraçar a ideia de vir a ser implantado da forma mais natural e adulta possível; pois que todo o caminho a percorrer rumo ao sucesso desta nova etapa dependia, como dependeu! da forma como eu encarava esta nova etapa.

Assim, passados que foram os 11 anos de silêncio, e a ouvir através da escrita de caracteres na palma da mão, a 18 de Fevereiro de 2005, no Centro Hospitalar de Coimbra – antigo Hospital dos Covões, fui submetido à cirurgia de implante-coclear.
A cirurgia, um vulgar acto médico nos tempos que correm, correu naturalmente bem, o pós-operatório mais parecia que me encontrava numa estancia de férias, diferindo apenas no local, no pessoal que me rodeava e nas rotinas diárias: pois que um hospital, por melhor que possa ser, não é um hotel de 5 estrelas.
Depois do internamento, seguiu-se a activação e colocação do processador de voz-fala, a qual se realizou a 28 de Março do mesmo ano. Diz quem assistiu que as minhas expressões faciais iam manifestando uma sensação de alegria/incerteza, pois que os primeiros sons que sentimos são ainda muito embrionários, mas, sei-o hoje, se bem trabalhados, por nós em conjunto com os audiometristas e terapeutas da fala, o sucesso desse longo caminho vai acontecendo de dia para dia, momento a momento, instante a instante: surpreendendo-nos a cada instante de uma forma inexplicável!

A melhor forma que encontro de explicar este processo cognitivo é a imagem de uma tela de pintor totalmente em branco; onde o artista, momento a momento, instante a instante, dia após dia, vai acrescentando traços, sombras, cores e tonalidades que vão assim construindo a imagem que no fim visualizamos na Obra de Arte que é uma Paisagem Sonora para quem foi implantado.
Todo este processo, de e até ao o implante-coclear, repetiu-se também no ano de 2006, pois que fui submetido a 2ª cirurgia de implante novamente, desta vez ao ouvido esquerdo, a 16 de Maio desse mesmo ano, tendo feito a activação deste 2º implante-coclear durante o mês de Junho seguinte.
Tudo se processou da mesma forma que da 1ª vez, muito embora ajudado pela experiência que já trazia do 1º implante-coclear; mas com a novidade de poder agora ouvir com as duas fontes de captação sonora, o que me trouxe não só uma qualidade de vida que nunca tivera vivenciado como, até, o acesso a sons e momentos sonoros que alguma vez possa ter tido na minha vida.

Os processos de reabilitação foram, de certa forma, autodidactas; já que o audiometrista me havia dado umas listas de vogais, consoantes, fonemas, monossílabos, frases e outras que com a ajuda de alguns colegas de trabalho, amigos e familiares fui trabalhando naturalmente e sem pressas, o que em muito contribuiu, e está ainda a contribuir, para o sucesso desta Obra de Arte que é a reabilitação auditiva com recurso ao implante-coclear.

Resumindo em poucas, mas muito sentidas, palavras:

«A música é a melodia do silêncio!»


José Pedro Amaral
22.01.2008

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