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Nov
A polimedicação nos idosos é, nos dias de hoje, uma situação mais comum do que o que seria esperado, e que tem diversas implicações para a saúde. Como tal, é essencial que a população em geral esteja sensibilizada para este problema, e tome as medidas necessárias de forma a diminuir /suprimir as suas consequências.
E o que é a polimedicação? Tal como o nome indica, é o consumo simultâneo e de forma crónica (compreende períodos superiores a 3 meses), de fármacos diferentes, pelo mesmo indivíduo. Apesar de não haver um consenso entre os vários autores em relação ao número mínimo de fármacos prescritos para considerar o indivíduo polimedicado (variando entre 2 e 5 fármacos, consoante os estudos), a maioria dos autores considera os 5 fármacos.

Têm sido várias as causas que contribuíram para o agravamento da polimedicação em Portugal, nomeadamente a maior recorrência às consultas de várias especialidades, o que acarreta alguma falta de coordenação das prescrições médicas; a facilidade na aquisição de medicamentos não sujeitos a receita médica e que interagem com a restante medicação; a maior procura das medicinas complementares e alternativas, de entre as quais a fitoterapia, que combina o uso de produtos naturais derivados de plantas, produtos estes que vão interagir com os fármacos.

Especialmente nos idosos, esta é uma situação muito preocupante, dado que existem estudos que demonstram existir uma maior frequência de efeitos adversos, induzidos por fármacos, no idoso (relacionado com a própria fisiologia do envelhecimento – diminuição da capacidade funcional dos órgãos, em particular do rim e do fígado, entre outras causas). Assim, está provado que a polimedicação, associada à maior susceptibilidade dos indivíduos idosos, aumenta o risco de interacções medicamentosas, o que leva a um aumento da morbilidade e mortalidade.

Um estudo realizado nos EUA, pelo National Service Framework for Older People (2001), revelou que 5-17% dos internamentos hospitalares são causados por reacções adversas a medicamentos.

No que diz respeito às doenças que mais contribuem para a polimedicação, destaca-se a hipertensão, problemas cardiovasculares, doenças reumáticas, problemas endócrinos e relacionados ao sistema nervoso central, sendo que as classes de medicamentos que mais contribuíram foram os anti-hipertensivos, antidiabéticos, psicotrópicos, antitrombóticos e analgésicos (Souza da Silva, 2007; programa “maiscinco”).

Em Portugal, está a ser realizado um estudo pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, intitulado “Investigação e Intervenção Farmacêutica”, junto de mais de 600 idosos para avaliar as condições em que esta população toma a sua medicação. Alguns dos dados já divulgados referem que os idosos, com idade superior a 65 anos, tomam em média sete medicamentos por dia, tendo sido detectados casos de pessoas a tomarem cerca de 17 medicamentos.

Num centro de Saúde de Lisboa (Lumiar) foi também realizado um estudo que demonstrou que cerca de 56% dos utentes consumia três ou mais fármacos (Silva, 2004). Para além disso, neste estudo, foi demonstrado que 28,3% consumia produtos naturais, sendo este facto mais frequente nas pessoas na faixa etária dos 60-70 anos. Denota-se assim uma taxa elevada de consumo destes produtos, o que se traduz num aumento do número de medicamentos que cada indivíduo faz. Há, portanto, uma necessidade de existência de um maior número de estudos sobre os efeitos terapêuticos, possíveis interacções medicamentosas e reacções adversas.

Contudo, a identificação das reacções adversas e efeitos secundários resultantes da polimedicação e da interacção entre fármacos é bastante difícil. Estes prendem-se com: cansaço, sonolência, tristeza, confusão, quedas frequentes, sensação de fraqueza, tremores, agitação, perda de apetite ou perda de memória.

Muitas vezes, estes sintomas, resultantes de reacções adversas da medicação, confundem-se com os sintomas das doenças prévias que as pessoas têm, passando assim despercebidas.

Daí advém a importância de estar alerta para esta situação, recorrendo não só à ajuda de profissionais de saúde, mas também adoptando uma atitude pró-activa na sua saúde. Existem várias estratégias que pode adoptar de forma a evitar complicações com medicamentos:

- Faça uma lista detalhada (com nome, e dosagem tomada) de todos os medicamentos que estão prescritos, medicamentos de medicina alternativa e suplementos alimentares que se encontra a tomar, e leve sempre consigo essa lista quando for ao médico;

- Nunca tome um medicamento novo sem se informar junto de técnicos de saúde acerca dos efeitos secundários, reacções adversas e possíveis interacções medicamentosas;

- Leia sempre a informação que acompanha os medicamentos e questione o seu médico/farmacêutico acerca de dúvidas que tenha;

- Tome apenas medicamentos para aliviar os sintomas que tem, e não os que pode vir a ter.
Em resumo, a polimedicação pode tornar-se um grave problema com consequências nefastas para a saúde, se não for acompanhada de perto. Por isso, se toma vários medicamentos por dia, aconselhe-se junto do seu médico de família. Por vezes, pode ser efectuada uma revisão terapêutica, de forma a reduzir o número de fármacos ingeridos diariamente. Existem mesmo programas nacionais de aconselhamento sobre polimedicação, que podem ser úteis na resolução do seu problema.

Só não deixe que o problema da polimedicação afecte a sua vida/ dos seus familiares.


Enf. Paula Caetano
Mestre em Saúde Pública
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