3
Nov
Mais de 5 milhões de pessoas em todo o Mundo têm Diabetes Mellitus, sendo que metade não tem conhecimento do facto (Organização Mundial de Saúde, 2008?). Esta situação surge como um grave problema, tendo em consideração a elevada probabilidade que estes doentes têm de desenvolvimento de complicações crónicas, pelo facto de não terem um acompanhamento adequado. De entre essas complicações, é de realçar o pé diabético.

O Pé Diabético é uma das complicações mais graves da Diabetes Mellitus, sendo o principal motivo de ocupação de camas hospitalares pelos diabéticos e o responsável por 40 a 60% de todas as amputações efectuadas por causas não traumáticas. Deste modo, esta é uma situação à qual devemos estar atentos, actuando de forma preventiva.

O pé diabético é provocado devido às lesões nos pés decorrentes de neuropatia periférica (em 90% dos casos), doença arterial periférica e deformidades, que provocam um quadro de infecção, ulceração e/ou destruição de tecidos profundos.
A neuropatia periférica diabética é um distúrbio no nervo periférico caracterizado por atrofia e degeneração dos neurónios, causando a diminuição da condução nervosa e até a interrupção da transição do impulso nervoso (na forma mais grave). Desta forma, o doente não sente qualquer dor, ficando mais susceptível a pequenos traumas que podem condicionar o surgimento de úlceras e evoluir para a necessidade de amputação, caso estas não seja tratadas adequadamente.

Na doença arterial periférica, o surgimento do pé diabético dá-se pelo acometimento precoce das artérias decorrente da arterosclerose, aumentando a possibilidade de infecção, principalmente num doente que tenha os valores de glicemia capilar alterados.
Em dados estatísticos, estima-se que cerca de 15% da população diabética tenha condições favoráveis ao aparecimento de lesões nos pés, nomeadamente pela presença de neuropatia sensitivo-motora e de doença vascular aterosclerótica.

Estima-se, ainda, que, em Portugal, possam ocorrer anualmente cerca de 1200 amputações não traumáticas dos membros inferiores, resultando um esforço acrescido do membro remanescente, que poderá iniciar problemas em apenas ano e meio, quer se tenha ou não provido de prótese o membro amputado. Decorridos cinco anos sobre a primeira amputação, mais de metade dos doentes já terão sofrido amputação no membro inferior contralateral.

Estudos efectuados no Brasil revelaram que a faixa etária de doentes amputados é dominante no que diz respeito aos idosos. Contudo, foram encontrados doentes com 23 anos de idade, submetidos a amputação, o que pode estar relacionado com o estilo de vida: alimentação inadequada, stresse, não adesão à terapêutica antidiabética (o que condiciona alterações da glicemia capilar).

No mesmo estudo, foi ainda destacado o facto de se ter observado um maior número de amputações do membro inferior direito em relação a amputações do membro inferior esquerdo, o que pode estar relacionado com a descarga maior de peso no membro inferior direito, ou ao maior uso em determinadas situações, por estar relacionada à dominância do membro.

Desta forma, existem estudos que demonstram que 85% dos pacientes com ulcerações sofrem amputações. A amputação dos membros inferiores nos diabéticos causa um alto índice de incapacidade funcional, perda da qualidade de vida, morbilidade e mortalidade.
Neste sentido, a prevenção é fundamental. Sendo possível a redução em 50% das amputações com prevenção, detecção precoce e o tratamento das manifestações clínicas, há que agir, e não deixar que uma lesão que possa surgir no pé, por mais pequena que seja, se desenvolva e culmine numa amputação.
O tratamento preventivo tem como objectivo impedir o aparecimento de lesões e ulcerações nos pés, sendo que os seguintes aspectos são essenciais: lavagem dos pés com água tépida e uma boa secagem dos mesmos, incluindo os espaços interdigitais; aplicação de creme hidratante; corte correcto das unhas, com lima de cartão e de forma a que as unhas fiquem sem saliências; a inspecção diária dos pés, procurando lesões, bolhas, sangramentos ou feridas que não cicatrizam; a inspecção dos calçados, procurando pedras ou algum objecto que possa estar dentro do sapato; o uso de calçado adequado, sendo que não deve ser um calçado apertado; a necessidade de realizar exercícios aos pés, massajando-os, e assim activando a circulação sanguínea.

De entre os mais importantes tratamentos, está ainda o controle da glicemia capilar. Só assim é possível evitar o aparecimento de neuropatia periférica. Existem testes específicos, como o teste do monofilamento, que testa a sensibilidade do doente na região do dorso e da planta do pé. Assim, poder-se-á despistar a neuropatia e, consequentemente, manter uma maior vigilância sobre essa pessoa.

Contudo, para tal, é necessário estar alerta para esta situação. É essencial que se informe no seu Centro de Saúde, junto do médico /enfermeiro de família, para que possa ter um acompanhamento /tratamento adequado à sua situação específica.
Inspeccione diariamente os seus pés. Ao mínimo sinal de ferida, úlcera, recorra a profissionais de saúde que possam avaliar a situação e agir o mais rapidamente no sentido da sua resolução.

Enf. Leonor Monteiro
Enfermeira Especialista de Reabilitação
Esta notícia já foi consultada 4427 vezes
 
Publicidade