14
Jan
É vulgar ver coisas escritas e transmitidas pelos Mass Media absolutamente disparatadas sobre T21.
Perante um "Perdidos e Achados" na SIC (passado num sábado à noite em horário nobre), resolvi contactar a SIC e posteriormente escrever o e-mail que anexo.
Porque acho que quando o disparate é demais, é preciso chamar a atenção.

Partilho convosco a minha indignação.


[I]Cara equipa dos Perdidos e Achados,

Foi boquiaberta que vi, na semana passada, a peça Perdidos e Achados sobre um jovem com Trissomia 21 que, em 1996, percorria com a mãe diariamente 8km por caminhos de cabras para ir à escola todos os dias.

E fiquei boquiaberta porque vi:

- uma mãe das berças, analfabeta, que acredita que vale a pena tranpôr montes e vales para dar uma educação escolar ao seu filho

- um professor, letrado, que apesar de só ter 2 alunos, achou que não valia a pena ensinar nada ao "tolinho" - "nem uma letra, nem um número".

Se tivesse que escolher, diria que, dos 3, o atrasado mental é o professor que, na peça, é apresentado em tom de nostalgia quase como um herói.

Que em 1996 se tivesse feito uma peça nesta perspectiva, custa-me, mas compreendo. O que me choca é que a voltem a repescar nos mesmos termos no virar do ano de 2009.

A APPT21 (Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21) trabalha incansavelmente há 20 anos com estas crianças com o objectivo de lhes criar um projecto de vida digno que passa, antes de mais, pela inclusão escolar.
Neste momento, 100% das crianças acompanhadas pela equipa de técnicos da APPT21 estão inseridas no sistema regular de ensino e cerca de 80% estão a ler com 8/9 anos (v.s 5% em 1980).

Uma das maiores dificuldades que enfrentamos passa por responsabilizar os professores e fazê-los acreditar que vale a pena investir nestas crianças. A maior queixa/desculpa é o facto de existirem alunos a mais nas turmas, o que dificulta a atenção e o tempo que se pode dedicar a um miúdo com necessidades especiais.
Acho inadmissível que um professor de ensino básico com 2 alunos considere que não há nada que possa fazer com 1 deles. E que, na peça, o caso seja apresentado como normal e inevitável.
Considero que este professor foi criminoso na forma como sacudiu a água do capote e que atraiçoou aquela mãe (a tal, analfabeta, das berças).

Já tenho sido convidada para ir a programas de televisão falar sobre o meu caso ou sobre outros casos de crianças com T21. E quando aceito o convite não o faço por vaidade. Faço-o porque acho que tenho a obrigação de dar esperança a outras mães. Faço-o porque sei que estas crianças são capazes de ir muito mais além do que nós julgamos e que todos os dias nos podem surpreender.

Quando vi esta peça senti que todo o trabalho que tenho feito, em conjunto com outros pais e com os técnicos da Associação, foi estrampalhado em 15 minutos de reportagem.
Esta peça:
- tira esperança aos pais
- desresponsabiliza professores
- descredibiliza as capacidades destas crianças

É uma peça jornalisticamente irresponsável.

Fico ao vosso inteiro dispor para, em futuros trabalhos sobre este tema, fornecer toda a informação e documentação necessária. Porque acredito que vale a pena percorrer todos os quilómetros necessários com a minha filha às costas.

Melhores cumprimentos,
Francisca Prieto
(representante de pais da APPT21) [/I]


Resposta da SIC:

D. Francisca Prieto:

Em reposta ao e-mail que enviou para a SIC e na qualidade de jornalista responsável pelo programa “Perdidos e Achados” do passado dia 22 de Dezembro, gostaria de esclarecer o seguinte:

1. A reportagem não era sobre Trissomia 21 nem sobre o Sérgio. Tratava-se de recuperar uma história feita em 1996 pelo jornalista Alberto Serra (que, entretanto, se transferiu para a RTP) sobre a desertificação do país, procurando saber, de acordo, aliás, com a filosofia do “Perdidos e Achados”, o que sucedeu às diferentes personagens retratadas na altura.

2. Uma dessas personagens é o tal professor “letrado”. Ao contrário do que refere, não apresento este professor “em tom de nostalgia quase como um herói”. Mas também não deixo de pôr no ar as suas afirmações, proferidas em 1996 e em 2008, só porque são politicamente incorrectas. Isso sim, seria fazer uma peça “jornalisticamente irresponsável”. Este “Perdidos e Achados” é também sobre este professor, com todas as suas virtudes e defeitos. O julgamento das suas afirmações e dos seus comportamentos deixo-o para os telespectadores da SIC, todos os telespectadores da SIC e não apenas os que são pais de crianças com Trissomia 21 que me merecem, como calculará, o maior respeito.

3. Diz no e-mail que lhe custa que a SIC tivesse abordado este assunto em 1996 e o tivesse repescado agora, porque é uma peça que tira esperança aos pais. Pois bem: o que seria do Sérgio se, em 1996, a SIC não tivesse divulgado as condições miseráveis em que o menino e a família viviam? Porque a verdade é que, no ano lectivo seguinte, aquela escola fechou, o Sérgio passou a ter transporte para a escola nova, passou a conviver com outras crianças e, pouco tempo depois, com o apoio da autarquia, mudou para a casa onde ainda hoje se encontra, com água, luz e vizinhos à volta. Um pouco melhor, como concordará. E como é que soubemos isto tudo? Porque repescámos o assunto.

4. O processo educativo do Sérgio foi o ideal? Na minha opinião não foi, e disso dei conta na reportagem, ao escrever e ao dizer “Sérgio andou na escola até aos 19 anos, mas não consegue riscar uma letra ou um número. Nunca frequentou o ensino especial que, eventualmente, lhe poderia garantir um acompanhamento técnico mais eficaz e um futuro menos incerto quando, pela ordem natural da vida, a mãe já não puder cuidar do Sérgio”.

Com os meus cumprimentos
Carlos Rico


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