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Out
Uma entrevista com Jamie Knight: Autismo e Web design acessível

Setembro de 2009
Autor: Iheni


Acessibilidade da Web e cognição é um campo vasto e importante e, sem dúvida, o menos compreendido até agora.

Ao longo dos últimos meses tenho tido a sorte de conhecer um incrível e emergente web designer chamado Jamie Knight. Acontece que Jamie também tem autismo e tem muito a dizer sobre web design acessível e o que a web significa para ele.

Com 20 anos de idade, Jamie envolveu-se com web design depois de Alan Rowe lhe ter oferecido um emprego no Pentangle. Nesta entrevista (realizada por e-mail), Jamie partilhou algumas das suas ideias, dando-nos um vislumbre de alguns dos temas que vai abordar, neste Sábado (19 de Setembro) no Standards.Next, um encontro sobre cognição e acessibilidade que decorrerá em Londres.


[B]Olá Jamie, pode falar-nos um pouco sobre si? [/B]

Sou o Jamie, tenho 19 anos, projecto e desenvolvo websites… eu também tenho autismo! O autismo é uma diferença, na verdade, e certa forma, todos têm autismo à sua maneira. O autismo típico é o extremo de uma série de características. Por exemplo: sensibilidade sensorial, questões de competência social, questões de capacidade cognitiva, como o planeamento ou o processamento de alguns tipos de informação.


[B]Como é que o autismo o afecta pessoalmente? [/B]

Como é que o meu autismo me afecta? Wow, essa é uma grande questão, mas vou tentar responder de uma forma rápida e breve. Suponho que as áreas em que mais me afecta são a sensorial e a de processamento. No que se refere à área sensorial, posso ficar "sobrecarregado" com fortes sensações como sons, toques e movimentos. Quando isso acontece, é-me muito difícil processar a informação e posso ter dificuldades em falar ou entender as coisas. Em casos extremos, isso pode causar um "shutdown", que é basicamente quando o meu cérebro se fecha a estímulos exteriores e entra num estado mais protegido em que preciso de parar para recuperar. Nesses momentos, é-me muito difícil falar e normalmente tenho dificuldades em me localizar no ambiente que me rodeia.

Noutros momentos, o autismo afecta-me socialmente. Às vezes, situações de convívio social são para mim difíceis e confusas. Nos últimos anos tenho melhorado imenso.

A outra grande situação onde o autismo me afecta é na comunicação. Quando estou stressado posso perder a capacidade de falar! Isso às vezes acontece por longos períodos de tempo (por exemplo, até 7 meses). Hoje em dia não tenho tantas vezes esse problema, mas quando perco a capacidade de falar uso a tecnologia para compensar.
No ano passado, quando não conseguia falar usei o Mac Quicksilver App e a função de texto do meu telemóvel para escrever mensagens.


[B]Há quanto tempo usa a Web e para quê?[/B]

Eu uso a internet com bastante frequência, basicamente todos os dias, é provavelmente a minha principal ferramenta de comunicação! Uso muito o e-mail, pois ajuda-me a comunicar sem tornar as situações sociais estranhas. A possibilidade de rever o que escrevi antes de enviar ajuda-me a evitar muitos erros. Além disso, o Google Phrases como dicionário de idiomas é para mim uma ferramenta muito útil em várias ocasiões.
De certa forma, para as pessoas com autismo, a web é muito, muito estimulante, dá-nos um meio de comunicação, onde muitas (se não as mais complicadas) das normas sociais não estão presentes. Acho que há uma expressão na Web que traduz isso: "ninguém sabe se és um cão" (ou talvez um leão)!
Conheço muitas pessoas em fóruns e afins e fico a conhecê-las dessa maneira. Conhecer outras pessoas na Internet é muitas vezes difícil e, no passado, conheci internautas super “entusiasmados” e outros bastante arrogantes. Pode ser difícil conhecer outros web designers nas esferas sociais, já que podem, talvez, não aceitar da melhor maneira comentários sobre os seus trabalhos (que podemos não achar os melhores).


[B]Como designer, quão acessíveis são para si, as ferramentas de Web design? [/B]

Depende das ferramentas. Sou um utilizador apaixonado do Fireworks (gosto da sua natureza editável e lógica) e do Coda. Prefiro a plataforma Mac, pois é mais fácil de trabalhar. Às vezes os pequenos detalhes são aqueles em que a Mac acerta. Quanto ao Coda, acho o conceito de um ambiente com uma única e simples janela muito interessante, pequenos detalhes como lembrar que estão separadores abertos quando se alterna entre projectos e até mesmo alguma da simplicidade visual, tornam-no em algo com que gosto de trabalhar.


[B]O que o leva aos sites propriamente ditos: quais são os seus favoritos e por quê? [/B]

Gosto muito do fórum Boagworld and community. Ainda estou à espera de encontrar outra comunidade com o mesmo equilíbrio entre paixão, conhecimento e acessibilidade. Não a acessibilidade técnica, mas uma que ofereça mais abertura às pessoas que ainda estão a aprender. Acho que muitos fóruns sobre web design centram-se na concorrência e muitas vezes promovem más práticas. Boagworld tem um bom equilíbrio entre conhecimento e aceitação.


[B]Que tipos de websites não funcionam para si? [/B]

Os sites de reservas são provavelmente os piores. As interfaces estão ocupadas, muitas vezes são instáveis e podem mostrar horários que não estão realmente disponíveis. Viajar é uma das coisas que acho mais stressantes e é a razão de simplificar as minhas viagens ao máximo (entrar no comboio, sair do comboio … chegar), e os sites agravam ainda mais o problema.


[B]O que podem os Web designers fazer para tornar os sites mais fáceis de utilizar por pessoas com autismo? [/B]

Hmmm, isso é uma grande questão! Acho que a coisa mais importante é ser lógico e consistente. Para qualquer pessoa, ter um site que faz sentido é importante, suportando-o com actualizações consistentes, tornando-o útil para mais pessoas, incluindo os autistas. Outro problema pode ser a música, assim como outros elementos altamente distractores. Se se estiver a utilizar um leitor de ecrã, por exemplo, com música a tocar ao mesmo tempo pode ser debilitante. Além disso, o lado sensorial da carga do áudio inesperada pode causar stress, ou "choque". Alterações súbitas e frequentes de som podem causar problemas sérios àqueles que são mais sensíveis.


[B]Há algum desafio específico que encontre em diferentes tipos de conteúdo da Web? [/B]

O vídeo pode, às vezes, ser um problema, mais especificamente, quando as falas são muito aceleradas. Às vezes (mais quando estou stressado), o processamento da linguagem é-me muito difícil ou lento (tenho a sorte disso apenas ocorrer quando estou stressado). Porém, para outros, uma linguagem fluente (a alta velocidade) pode ser sempre um problema. Às vezes, a capacidade de abrandar o conteúdo pode ajudar à compreensão … Eu não conheço nenhum sistema capaz de abrandar o vídeo ou o som, tornando-os mais compreensíveis. Isso seria algo que adoraria ver no futuro.


[B]Quais os navegadores que usa e porquê? [/B]

Uso o Safari, porque é rápido e funciona sem ser com o discurso todo. Também uso o Firefox para desenvolvimento. De tempos a tempos, uso navegadores específicos. Tenho usado o Fluido para configurar os navegadores para o acesso ao meu banco on-line e a sites mais visitados. Também usei uma stylesheet personalizada para tentar ajudar com a legibilidade etc. Ter o SSPBs é muito útil, pois simplifica e torna o processo muito mais simples para mim. Dá-me uma aplicação com um objectivo.
Ajudei a ensinar pessoas com autismo a usar a web e descobri que SSBs pode ser muito útil. Embora os indicadores sejam mais flexíveis, são um conceito abstracto que, para algumas pessoas, pode ser difícil de entender. Acho que todos nós conhecemos alguém que pode referir-se os ícones do Internet Explorer como "A internet" ou "Google" – esta é apenas uma extensão deste comportamento.


[B]Personaliza o seu navegador de alguma forma? Em caso afirmativo, como e para quê? [/B]

Além de usar uma simplified skin para o Firefox (que permite o uso de palavras curtas e de zoom no ecrã) não modifiquei grandemente os meus browsers.


[B]Tem preferência por algum dispositivo de interface específico, como teclados, ratos, trackballs, touchscreens, ou trackpads? [/B]

Na verdade não, embora prefira o rato e o teclado em vez de trackpads. Mas isso é apenas uma preferência!


[B]Que tipo de dispositivos informáticos prefere? Desktops, laptops, tablets, computadores portáteis, telemóveis, televisão, etc? [/B]

Adoro o meu iPhone, ajuda-me a organizar a minha vida! O meu iPhone funciona como um lembrete digital, leitor de audio-livros, treinador pessoal, pergunta, resposta e assume o papel de um “manager” dedicado! È, normalmente, a primeira coisa que vejo de manhã e a última que vejo à noite.

Cada dia começa com a consulta do calendário e da "things.app" móvel. Estas duas aplicações ajudam-me a chegar onde preciso, quando preciso. Também oiço muito áudio-livros, estes fizeram uma enorme diferença no meu dia-a-dia. Tendo a ouvir só 2 ou 3 em repetição, já que são histórias ou livros de que gosto particularmente. Também me serve de ajuda para dormir à noite (tendo a divagar quando ouço áudio-livros).

Uma coisa comum a quem tem autismo são as preocupações e as “redes de preocupação”. Redes de preocupação acontecem quando nos preocupamos com uma coisa que, por sua vez, leva a outras coisas que nos preocupam. Um clássico seria: Esqueci-me de pagar o imposto municipal, sou multado, não posso pagar a multa, acabo sem-abrigo, perco o emprego, acabo morto! Etc, etc. Normalmente os cenários tornam-se bastante épicos muito depressa, deixo de me preocupar com o problema inicial e acabo aterrorizado com o problema do final da rede. O meu iPhone ajuda-me de novo neste ponto, eu posso localizar as preocupações (e as suas redes) e usá-lo para investigar quaisquer problemas. Então, basta consultar um site ou pesquisar o facto na Wikipédia. Lembro-me de passar uma noite com medo de poder ser esmagado pelo tecto, porque não conseguia entender como é que o gesso adere ao tecto. O que começou como uma pergunta, transformou-se em poucos dias, num filme de terror! Uma simples ida à Wikipédia ou uma simples pesquisa online pode ajudar muito nestas questões.

Outra das áreas em que a tecnologia me tem ajudado é na comunicação (quando não sou capaz de falar). Uso o Quicksilver da Mac App e o meu Nokia E61 como as minhas principais formas de comunicação.


[B]Como vê o futuro da Web? [/B]

Sinto que o futuro passa pelo “empowermen”, ou seja, dar mais poder às pessoas. Porém o governo britânico desenvolve softwares de difícil utilização e visualmente pouco atraentes. Normalmente os sistemas mais complexos são os piores e os mais stressantes. Por exemplo, pagar os impostos online é tão complicado que até um leão se esconderia debaixo do sofá só para não ter que o fazer (e eu também). Dar oportunidade às pessoas de fazerem coisas sem precisarem da ajuda é a principal vantagem da internet. No futuro gostava que estes sistemas se tornassem mais simples, menos burocráticos e mais abertos a ajudarem pessoas. Isto iria promover uma maior autonomia às pessoas. Um grande exemplo de coisas que a internet facilita é os grupos sociais de cariz profissional.

Por exemplo, um dos problemas dos autistas pode ser no trabalho. O ambiente e as pessoas podem até ser simpáticas, mas a capacidade de interação social de um autista está afectada, o que pode causar problemas de interacção social. Neste sentido, a internet pode ser muito útil, permitindo que as pessoas trabalharem a partir de casa, reduzindo o stress que o ambiente no local de trabalho pode provocar, bem como, a pressão dos colegas (bulling).

Eu costumo trabalhar com um enorme peluche (um leão) ao meu lado. Mas se, por exemplo, estivesse num escritorio isso já não seria possível. A trabalhar online, remotamente, ou no meu espaço controlado, posso trabalhar da maneira que quiser, sem que isso cause problemas aos outros. Já me viram trabalhar debaixo de uma secretária, porque gosto mais de estar no escuro da noite (por exemplo, ás 3 da manhã quando não consigo dormir).

Assim, a internet ajuda-me a ultrapassar as desvantagens que o autismo me traz.


[B]Obrigado Jamie por ter despendido o seu tempo a falar connosco! [/B]


Entrevista traduzida por
(colaboradora permanente do ajudas.pt)
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