Um cego ajudado por uma cadela-guia parece ser um cenário bastante raro em Pequim, o que faz de Gucci e Nita, duas labradoras pretas, verdadeiras estrelas, dentro e fora da Aldeia Paralímpica dos Jogos Pequim2008.
Empenhadas na sua missão de auxílio aos donos, os atletas Carlos Lopes e Firmino Baptista, Gucci e Nita nunca perceberão que são as duas únicas habitantes de quatro patas da aldeia paralímpica, e parecem indiferentes aos muitos olhos e flashes que sobre elas se debruçam.
Terça-feira, as pachorrentas Gucci e Nita foram vistas por uma equipa de veterinários, numa operação que envolveu cerca de uma dezena de pessoas, após a qual lhes foi atribuído mais um certificado “pessoal”, intransmissível e essencial para qualquer saída.
Carlos Lopes e Firmino Baptista, que até foram inquiridos sobre a escola onde as cadelas foram ensinadas, estão obrigados a comunicar diariamente os movimentos de Gucci e Nita, dentro e fora da Aldeia Paralímpica, e “proibidos” de perderem o certificado, mais um, essencial para o regresso a Portugal.
Enquanto a maior parte dos atletas olham para Gucci e Nita com os olhos de quem vê “apenas” uma cadela-guia, os chineses ficam fascinados, mantendo sempre uma distância mínima de segurança.
Fora da aldeia, num passeio a um centro comercial de Pequim, as duas cadelas tornaram-se o alvo de todas as atenções, com poucos a arriscarem fazer-lhes uma festa, mas dezenas a “apreciá-las”.
“Foi fantástico”, diz Carlos Lopes, dono da Gucci há seis anos, descrevendo que as “reacções foram paradoxais: uns tentavam fazer-lhe festas, outros demonstravam repulsa”.
Admite que “talvez seja porque na China os cães não entram nos centros comerciais”, mas confessa que “nunca tinha presenciado nada assim”.
Depois do passeio, nova aventura para as duas “melhores amigas do homem”, com um taxista a recusar-se a transportá-las e um segundo a aceder apenas quando lhe foi mostrado um documento passado no aeroporto que comprova a legalidade da permanência na China.
“Deixou-nos entrar no táxi, mas colocou uns jornais em cima do banco para elas não o sujarem”, conta Carlos Lopes, acrescentando: “ele não sabia que elas não se sentam no banco”.
Decorria a viagem normalmente quando Nita cometeu o “pecado” de espirrar três vezes seguidas, levando o taxista ao desespero, apenas compreendido por gestos e nunca pela linguagem, quase sempre indecifrável.
Além de não perceberem que atingiram o estatuto de “estrelas”, Gucci e Nita também não vão saber as complicações criadas com a sua viagem e muito menos que a sua comida teve de ser trazida de Portugal.
Quando a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes informou o comité organizador dos Jogos Paralímpicos da intenção de levar duas cadelas, recebeu de imediato o aviso: “Na China não há comida para cão”.
Depois de vários entraves e questões de pormenor foram finalmente autorizadas a viajar e portaram-se como “senhoras” em dois voos entre Lisboa e Pequim, durante cerca de 12 horas.
Já no aeroporto de Pequim, e com ambas aflitas e à procura de um pedacinho de terra para se “aliviarem”, foram inspeccionadas para receberem finalmente um “visto” de permanência, o tal que parece ser necessário para andarem de táxi.
Os nove anos de idade de Gucci conferem-lhe um estatuto mais calmo que os três de Nita, que há um ano guia Firmino Baptista, mas ambas anseiam pelo momento em que lhes é retirada a trela para uns saltos na relva, cuidadosamente tratada, onde sabem não poder “aliviar-se”.
Sempre obedientes, guiam os donos para quase todo o lado, sem perceberem que na China são animais raros.
Alexandra Oliveira, Agência Lusa
Lusa/fim
Empenhadas na sua missão de auxílio aos donos, os atletas Carlos Lopes e Firmino Baptista, Gucci e Nita nunca perceberão que são as duas únicas habitantes de quatro patas da aldeia paralímpica, e parecem indiferentes aos muitos olhos e flashes que sobre elas se debruçam.
Terça-feira, as pachorrentas Gucci e Nita foram vistas por uma equipa de veterinários, numa operação que envolveu cerca de uma dezena de pessoas, após a qual lhes foi atribuído mais um certificado “pessoal”, intransmissível e essencial para qualquer saída.
Carlos Lopes e Firmino Baptista, que até foram inquiridos sobre a escola onde as cadelas foram ensinadas, estão obrigados a comunicar diariamente os movimentos de Gucci e Nita, dentro e fora da Aldeia Paralímpica, e “proibidos” de perderem o certificado, mais um, essencial para o regresso a Portugal.
Enquanto a maior parte dos atletas olham para Gucci e Nita com os olhos de quem vê “apenas” uma cadela-guia, os chineses ficam fascinados, mantendo sempre uma distância mínima de segurança.
Fora da aldeia, num passeio a um centro comercial de Pequim, as duas cadelas tornaram-se o alvo de todas as atenções, com poucos a arriscarem fazer-lhes uma festa, mas dezenas a “apreciá-las”.
“Foi fantástico”, diz Carlos Lopes, dono da Gucci há seis anos, descrevendo que as “reacções foram paradoxais: uns tentavam fazer-lhe festas, outros demonstravam repulsa”.
Admite que “talvez seja porque na China os cães não entram nos centros comerciais”, mas confessa que “nunca tinha presenciado nada assim”.
Depois do passeio, nova aventura para as duas “melhores amigas do homem”, com um taxista a recusar-se a transportá-las e um segundo a aceder apenas quando lhe foi mostrado um documento passado no aeroporto que comprova a legalidade da permanência na China.
“Deixou-nos entrar no táxi, mas colocou uns jornais em cima do banco para elas não o sujarem”, conta Carlos Lopes, acrescentando: “ele não sabia que elas não se sentam no banco”.
Decorria a viagem normalmente quando Nita cometeu o “pecado” de espirrar três vezes seguidas, levando o taxista ao desespero, apenas compreendido por gestos e nunca pela linguagem, quase sempre indecifrável.
Além de não perceberem que atingiram o estatuto de “estrelas”, Gucci e Nita também não vão saber as complicações criadas com a sua viagem e muito menos que a sua comida teve de ser trazida de Portugal.
Quando a Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes informou o comité organizador dos Jogos Paralímpicos da intenção de levar duas cadelas, recebeu de imediato o aviso: “Na China não há comida para cão”.
Depois de vários entraves e questões de pormenor foram finalmente autorizadas a viajar e portaram-se como “senhoras” em dois voos entre Lisboa e Pequim, durante cerca de 12 horas.
Já no aeroporto de Pequim, e com ambas aflitas e à procura de um pedacinho de terra para se “aliviarem”, foram inspeccionadas para receberem finalmente um “visto” de permanência, o tal que parece ser necessário para andarem de táxi.
Os nove anos de idade de Gucci conferem-lhe um estatuto mais calmo que os três de Nita, que há um ano guia Firmino Baptista, mas ambas anseiam pelo momento em que lhes é retirada a trela para uns saltos na relva, cuidadosamente tratada, onde sabem não poder “aliviar-se”.
Sempre obedientes, guiam os donos para quase todo o lado, sem perceberem que na China são animais raros.
Alexandra Oliveira, Agência Lusa
Lusa/fim
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