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Dez

A associação Terra dos Sonhos e a farmacêutica Janssen-Cilag levaram dez crianças com doenças crónicas e idades entre os 7 e os 11 anos à Lapónia, a terra do Pai Natal. O DN acompanhou a viagem e conta a história desta aventura e o percurso de cada uma das crianças. Histórias de alegria mescladas com relatos de sofrimento. Sorrisos misturados com dor. Como quando, em vez de brinquedos, os miúdos pediram saúde ao Pai Natal
"Um dia, estava na escola, arregacei as mangas e descobri uma nódoa negra, assim mesmo escura, diferente das outras todas que eu já tive. Depois de alguns exames, descobriu-se que era um cancro no sangue." Raquel tem 9 anos e um olhar que revela uma luta imprópria para a idade. "Estive muito tempo no IPO, também estive em isolamento. Os tratamentos deixaram-me a boca cheia de feridas, e eu não me ria, não falava e não conseguia comer. E depois foi o cabelo. Às vezes deitava-me na cama, levantava a cabeça e via a almofada cheia de cabelos. E então começava a chorar. Porque eu gostava muito do meu cabelo. Era todo fininho, loiro e comprido."

Raquel é uma das dez crianças, com idades entre os 7 e os 11 anos, que a Associação Terra dos Sonhos (ver caixa pág. 4) levou à terra do Pai Natal, na Lapónia. Todas elas têm em comum uma história de doença e de luta. Oito tiveram ou ainda têm doenças oncológicas, duas nasceram com espinha bífida, uma má formação na coluna que provoca danos no sistema nervoso central.

Além das dez crianças, na comitiva seguiram duas enfermeiras, Lília Vitorino, do Instituto Português de Oncologia, e Luísa Monteiro, do Hospital D. Estefânia (ver texto pág. 5), Madalena d'Orey, presidente do conselho consultivo da Terra dos Sonhos e líder desta missão por terras do Pai Natal, e ainda dois representantes da Janssen-Cilag, a farmacêutica que patrocinou esta viagem.

No dia 7 de Dezembro, às 6.30 da manhã, reuniram-se crianças e adultos junto às Partidas do aeroporto de Lisboa. O grupo chamava a atenção. Não só por ser muita gente junta, não só por todos vestirem blusões de neve iguais, oferecidos pela Decathlon, onde se lia "Um Sorriso Vale Tudo" (o lema da associação Terra dos Sonhos), mas também porque algumas crianças tinham ainda vestígios da passagem da doença. O Alexandre e o Rafael usavam uma máscara a tapar o nariz e a boca (para evitar as infecções), ao André faltava o cabelo, as sobrancelhas e as pestanas.

"Andava muito mal disposto e depois começou a inchar-me uma orelha… Fiz exames e descobriu-se a doença. Era uma leucemia. Não percebi logo que era grave, mas fui-me apercebendo porque estava sempre a mudar de hospital, a mudar de hospital, nunca mais acabava." Alexandre tem 11 anos e fez um transplante de medula há pouco tempo. "Fiz quimioterapia, radioterapia… Vomitava muito. Estive em isolamento um mês. Tive sorte. Tenho um amigo que teve de ficar quatro meses isolado." E como é estar em isolamento? "É mau… Não temos nada para fazer. É sempre a mesma coisa… fazer desenhos, jogar PlayStation, jogar telemóvel, jogar tudo. E às vezes pedimos para estar com as enfermeiras. Para passar o tempo."

Rafael, o outro menino com máscara, tem 7 anos e luta ainda contra uma leucemia. André, 11 anos, sem cabelo, explica o que lhe aconteceu: "Há alguns anos apareceu-me um cancro no rabo. E agora… nos pulmões. Quando soube que tinha tido uma recaída fiquei muito triste. Nunca pensei que isso fosse acontecer. Às vezes penso na morte mas não gosto muito de pensar nisso. Se tiver que acontecer… Mas eu penso que vou ficar bom!"

Gato Fedorento no aeroporto

E de repente, ainda os miúdos estavam ensonados e sem descolar das pernas dos pais, eis que aparecem quatro figuras que os puseram logo a sorrir: Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela, Miguel Góis e Tiago Dores fizeram questão de desejar boa viagem às crianças e assinar alguns autógrafos. Os Gato Fedorento pediram desculpa, mas não quiseram entrevistas. "Não leve a mal… mas não queremos estar a 'publicitar' a nossa vinda aqui."

O Diogo, de 11 anos, não cabia em si de contente: "Gosto muito deles. Principalmente das bocas! Têm muita graça!" Tiago Dores olhou para ele e desconfiou: "Tu és rapaz para ser do Benfica…" Diogo, orgulhoso, confirmou.

Depois de alguns minutos de conversa, autógrafos e fotografias, chegava o momento de dizer adeus aos pais e seguir viagem. Quatro horas e meia até Helsínquia, na Finlândia, e depois outro avião rumo a Rovaniemi, na Lapónia. O voo, para alguns uma estreia, começou com o entusiasmo que se imagina mas, ainda a viagem não tinha chegado a meio e já havia quem perguntasse se faltava muito. "Que seca!", suspirava o João, de 9 anos.

Finalmente, às seis da tarde, hora local, quatro da tarde, hora de Lisboa, a comitiva chegou ao destino. E assim se tinha passado o dia. "Então e o Pai Natal?" Madalena d'Orey, que já fez um sem número de viagens com grupos de crianças, conhece de cor as ansiedades dos miúdos: "Amanhã vamos ter um dia em grande! Vamos dormir porque amanhã temos de estar cheios de energia. Certo?" E as dez crianças responderam em coro: "Certo!"
No dia seguinte a comitiva saiu do hotel e deparou-se com uma paisagem deslumbrante. Árvores completamente brancas, neve alta, telhados cobertos de um manto espesso. "Que bonito! Olha aquela árvore! Parece uma árvore de Natal falsa… Achas que é falsa?", perguntou o Diogo. O João indignou-se: "Claro que não!!! É lindo, isto..."

A Terra dos Sonhos tinha muitas surpresas reservadas para esse dia. Começar a nevar não era uma delas, mas o nevão que recebeu o grupo mal saiu da camioneta na Aldeia do Pai Natal parecia trazido de encomenda. Para alguns foi a primeira vez que viram neve: "Que lindo! Olha, está a nevar! Uau!", ouvia-se gritar.

O momento seguinte foi de felicidade pura. Os dez miúdos escorregaram num monte gelado, sentados, deitados, de frente, de costas. Foi a primeira vez que se escutaram risos e gargalhadas. Para muitos foi o melhor da viagem. "Foi o momento em que alguns deles, sobretudo os que ainda estão mais fragilizados, se sentiram novamente crianças. Acho que nem acreditavam que pudessem estar a fazer aquilo."

Depois, o grupo dividiu-se e foi andar em trenós puxados por renas. O João, o Diogo e o Manel foram juntos: "Tenho um bocadinho de medo", confidenciou o João. "Tens? Eu não! Bora lá, vai começar a andar!", respondeu, numa excitação grande, o Diogo. "Hi! Olha lá a rena a fazer cocó! Que nojo! Ó Manel, tu é que vais a conduzir as renas! Tem lá cuidado connosco!", riu o João. E, de repente, quando a rena dos três rapazes começou a acelerar, o João gritou: "Ó Rafa! A nossa rena está-vos a ultrapassar só que esqueceu-se do pisca!"

O João, que já passou por muito, nem parecia o mesmo. "Fui operado porque tinha um cancro no intestino que não deixava passar o cocó. Antes de ser operado fiz tratamentos que me faziam sentir muito mal. Não conseguia fazer quase nada, não me conseguia mexer, virar, era muito difícil fazer tudo. E depois vomitava muitas vezes um líquido amarelo. E metiam-me um tubo no nariz… eu odiei!"

A seguir ao passeio de trenó puxado por renas, as crianças foram andar de tobogan e até puderam conduzir umas mini-motas de neve. E foi então que, lá ao fundo, no meio do bosque branco, apareceu um homem enorme, de longas barbas brancas, vestido de encarnado. Os miúdos largaram tudo. "É o Pai Natal, é o Pai Natal!" Já na casa do velho das barbas, as dez crianças puderam pedir-lhe directamente os presentes desejados.

Mariana tem 10 anos e espinha bífida. Um caso ligeiro da doença (tal como o do Diogo), que geralmente provoca graves limitações a nível motor. Mariana anda perfeitamente, corre e, para o gravador, diz que a única implicação que a doença tem na sua vida é "não poder fazer certos desportos". Há um pouco mais que isso mas ela explica: "Claro que há coisas chatas, mas não falo delas porque são da minha intimidade. E, além disso, ultrapassam-se bem."

A Mariana foi a primeira a dar um murro no estômago de todos os que ali estavam, em redor do Pai Natal, quando pediu o seu presente: "Eu gostava de ter um computador portátil mas prefiro que as crianças deixem de morrer sem condições." Seguiu-se o Alexandre, que pediu "saúde para todos os seres humanos, em vez de uma consola". E a Raquel, que se ficou pelo pedido: "Muita saúde e muitos sorrisos."

Este foi outro dos momentos comoventes da viagem. Porque soa estranho ouvir crianças pedirem saúde em vez de brinquedos. Porque estas crianças, apesar de serem iguais às outras, foram obrigadas a crescer mais depressa, e é por isso que, além de saúde no lugar de brinquedos, elas sabem de cor a hora a que têm de tomar os medicamentos, são organizadas e responsáveis, e usam palavras de gente grande, como plaquetas, transplante ou cancro.

Para o André, foi muito tocante estar assim, frente a frente com o velho das barbas: "Foi o momento mais especial da viagem. Porque eu já não acreditava."

No fim do encontro, Manuel, de 8 anos, uma leucemia aos 3, entregou duas cartas em mão ao Pai Natal. Uma em português, a outra em inglês: "Não sei se ele sabe português, então achei melhor trazer as duas." Homem prevenido…

DIA 3 Passeio de moto de neve e jantar num restaurante de gelo

Não é difícil imaginar a alegria das crianças quando, no terceiro dia de viagem, viram trenós presos a potentes motas de neve. "Ontem as renas, hoje as motas! Isto é que vai ser!" Uma vez mais, João e Diogo seguiram juntos no trenó, Madalena d' Orey era a condutora da mota: "Madalena! Dá-lhe! Acelera! Ui, ui! Estou a gostar!"

Madalena d' Orey já trabalha há anos com crianças com cancro. Primeiro na Acreditar, agora como voluntária da Terra dos Sonhos. "Desde que sobrevivi a um cancro, tinha 11 anos, sempre pensei que tinha uma missão. E acho que ajudar estas crianças a lidarem com a doença e proporcionar-lhes momentos de diversão é, de facto, a minha missão."

No fim do passeio de motas de neve, o grupo chegou a uma quinta de Huskies, aqueles cães de olhos de lobo que puxam trenós em terras geladas. Como ali. E, claro, a Terra dos Sonhos tinha previsto também um passeio num trenó de madeira puxado por dez cães. Outra aventura que se revelou um sucesso.

"Às vezes pensava que podia não sobreviver e depois o meu pai, a minha mãe e os meus irmãos ficavam tristes." Alexandre, tão divertido no trenó rebocado por Huskies, é daquelas crianças que pensa muito nas coisas. Às vezes fica calado, a ouvir. Parece triste. "Não estou. Gosto de observar. Aprendo muito a observar." Se tudo correr bem, como parece, Alexandre terá sido salvo pela irmã gémea, de quem recebeu, há coisa de dois meses, um transplante de medula.

À tarde, a comitiva de dez crianças e oito adultos descansou no hotel. Porque à noite, estava programado um jantar num restaurante-iglo. O Manel estava deslumbrado: "Que giro! As mesas em gelo, as paredes… tudo! Nunca tinha visto nada assim… Está cá um frio." O jantar incluiu um presente para a sobremesa. Os representantes da Janssen, Ana Paula Belo e João Machado, deram a cada criança um iPod. E eles tornaram a responder em coro: "Obrigado!"

DIA 4 Jardim Zoológico do Árctico e dentadas de 'vison'

No quarto dia, um incidente. Primeiro e único da viagem. Em pleno Zoológico do Árctico, em Ranua, a 80 quilómetros de Rovaniemi, Diogo decidiu dar uma festinha a um vison… sem luvas. Resultado? Uma dentada violenta num dedo, muito sangue a pintalgar a neve branca, e duas enfermeiras prontas a entrar em acção. "Quero a minha mãe…", chorava o Diogo enquanto Luísa tentava estancar o sangue. "Meu amor, os bichinhos têm dentes! E não gostam de festinhas!" Diogo não sabia que a pele do vison era assim tão valiosa. "Ai é? Então já fazia dele um casaquinho! Anda cá, filho da mãe, que eu parto-te a cara! Estúpido!"

Mas daí a nada já o drama estava resolvido e o rapaz uivava junto aos lobos e gozava com as lontras "bué da gordas".

Depois do zoológico, o museu Arktikum, onde os miúdos ficaram a saber mais sobre os Sami, o povo mais antigo da Lapónia. E mais conversas sobre uma infância pesada, onde não falta, sequer, a precisão da data em que a vida se virou do avesso: "Sou a Soraia, tenho 11 anos, e no dia 14 de Abril de 2004 descobriu-se que eu tinha uma leucemia. Antes disso, ia para o hospital de Cascais e eles diziam que as dores que eu tinha nas pernas eram dores de crescimento. E não faziam análises. Quando a minha mãe soube até desmaiou, no corredor do hospital D. Estefânia. Estavam de rastos, os meus pais."

DIA 5 O regresso

À pergunta "Gostavas de voltar ou de continuar aqui?" os miúdos ficavam aflitos. "Gostava de… as duas coisas." Para muitos foi a primeira vez que saíram de casa, tirando, claro, todo o tempo passado em internamentos. As saudades dos pais cresciam de dia para dia, numa proporção semelhante ao prazer retirado da viagem e, por isso, a pergunta era de resposta impossível. Sobre os pais, a enfermeira Lília não se cansa de repetir que são, também eles, verdadeiros heróis: "Não só pelo que passaram e passam com a doença dos filhos, mas por os terem deixado vir. Estou muito orgulhosa deles. Porque não deve ter sido uma decisão nada fácil de tomar. Eu ouvi a mãe do Rafael dizer-lhe: 'Já viste, filho, isto vai ser como que um presente por termos passado por tanta coisa tão má.' Achei isto lindo. Doce. Porque ela sabia que ia ficar longe do filho, que ia estar a não sei quantos quilómetros de distância, sem controle nenhum sobre a situação, só para que ele pudesse ter um momento de alegria. Isto é muito nobre! E não é só uma questão de ser mãe! Não sei se qualquer mãe conseguia fazer isto com um filho saudável, quanto mais com um filho doente! Os meus parabéns aos pais e às mães."

Os pais estavam no aeroporto, num nervoso miudinho crescente. Quando viram os filhos passarem a porta das Saídas, a alegria foi enorme: "Ai que coisa tão boa!!! Portaste-te bem Manel?"; "Tinha tantas saudades tuas, Rute!"; "Se eu pensasse em mim, no meu medo, na minha angústia, o Rafael não ia. Mas eu tinha de pensar nele. E esta era uma oportunidade única. E ele merecia. Agora que o tenho aqui, vou apertar, apertar!"; "Em primeiro lugar está ele, só depois estou eu. E o André há seis anos que vive em luta. Já passou por tanta coisa má que merecia agora passar por isto também."

E assim terminou uma viagem de sonho para dez crianças que passaram, já, pelo maior dos pesadelos. Crianças que sabem já mais sobre a vida do que muitos adultos. Crianças que pedem saúde no Natal, em vez de brinquedos. Crianças que agradecem, a cada momento, a oportunidade que lhes foi dada. Na Lapónia, o lema da associação Terra dos Sonhos fez mais sentido que nunca. Dizem eles que um sorriso vale tudo. E vale mesmo.

Jonalista: SÓNIA MORAIS SANTOS
(Texto e Fotos)
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