Aos 36 anos, Marcelo Valeriano Barros vive uma vida comum a muitos brasileiros. Mora sozinho há três anos. Durante a semana, acorda às 6h, toma café da manhã e vai para o treinamento de office boy. Faz aulas de teatro duas vezes por semana e, para se locomover, usa o transporte coletivo. Marcelo também é excepcional, termo que ainda é visto por alguns com preconceito. Ele freqüenta a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae) quase diariamente. Lá, tem amigos e uma vida social como qualquer outra pessoa.
Hoje, dia 22 de Agosto, é comemorado o Dia do Excepcional, data que para a assistente social Rose Maria Carrara Orlato mostra a evolução na melhoria da qualidade de vida dessas pessoas. “Através da legislação, os excepcionais puderam conquistar o mercado de trabalho e ter direito ao estudo. Foram muitos avanços nas últimas décadas”, avalia.
Ela refere-se ao decreto n.º 3.298 de 1999, que trata da Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência. O decreto - mesmo que em muitos casos fique só no papel - tem o objetivo de assegurar os direitos individuais e sociais dos portadores de deficiência. “É através do decreto que os excepcionais tiveram o direito de trabalhar. Acredito que essa é a maior conquista deles”, opina Rose.
Já a Lei de Diretrizes e Bases da Educação assegurou o direito dos deficientes a freqüentar salas de aula de ensino público e particular. “As escolas e professores, muitas vezes, ainda não estão preparados para receber os alunos excepcionais, mas certamente foi uma conquista”, diz a assistente social.
Débora Braúna das Neves, que também freqüenta a Apae em Bauru, concorda que a maior conquista dela foi chegar ao mercado de trabalho. Empregada recentemente no setor de floricultura de um supermercado, ela trabalhou primeiro como empacotadeira e conseguiu subir na carreira.
Com o dinheiro que ganha, ajuda a irmã a pagar as contas de casa. O dinheiro restante ela gasta para se divertir e comprar roupas. Recentemente, conseguiu comprar um celular. “É minha maior alegria. Sinto-me realizada”, conta. Preconceito ainda existe? “Fico triste quando percebo que as pessoas dão risada de excepcionais e fazem piadas. Mas temos muito mais alegrais para contar”, diz.
Preconceito
Para Lucimara de Castro Figueiro, coordenadora de reabilitação da Sorri Bauru, entidade que atende pessoas com deficiência física, mental, auditiva, visual e a múltipla e portadores de hanseníase, o preconceito ainda existe e é um dos maiores obstáculos a ser transposto. “Os deficientes contam que o preconceito aparece de diversas formas, mas o fato de serem confundidos com loucos ou serem chamados de ‘coitadinhos’ são os piores para eles”, conta.
Ela argumenta que a acessibilidade física e comunicação ainda precisam melhorar muito. “Prédios, calçadas e outros ambientes nas cidades, inclusive Bauru, são barreiras físicas para os deficientes. Eles também reclamam muito da dificuldade na comunicação. Os elevadores, por exemplo, não têm sistema sonoro para indicar a um deficiente visual em qual andar ele está”, exemplifica.
E as conquistas? “A mídia, através de notícias e até de novelas, tem discutido bastante o assunto. Acho que atualmente as pessoas têm informação, o que não acontecia com tanta intensidade em décadas passadas”, argumenta. Ela ressalta que pouco tempo atrás, os deficientes quase não saíam nas ruas. Costumavam ficar dentro de casa, quase sem contato social. “Hoje os deficientes andam de ônibus, conversam com as pessoas e podem chegar a um restaurante e ler o cardápio em braille”, conta. “Aos poucos, os comerciantes estão percebendo que eles são consumidores como outro qualquer”, conclui.
Superdotados
Engana-se quem pensa que somente pessoas com deficiência física, mental, auditiva, visual e múltipla são consideradas excepcionais. O outro lado - aquelas consideradas superdotadas - também podem ser definidas como excepcionais.
“O mais comum é atribuir a denominação excepcional a pessoas portadoras de alguma deficiência, mas os superdotados também são excepcionais e enfrentam dificuldades”, afirma a assistente social Rose Maria Carrara Orlato.
Na escola, por exemplo, eles são pouco compreendidos. “Enquanto os outros alunos fazem as tarefas, eles já terminaram e se distraem com outras coisas. São mais impacientes e também requerem atenção”, explica
Por: Thatiza Curuci
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